Todo mundo que tem desvio de septo precisa operar?

Você fez um exame, descobriu que tem desvio de septo e já pensou: “Então vou precisar de cirurgia?” Essa é uma dúvida muito comum no consultório. E a resposta é: não necessariamente. O desvio de septo é uma alteração extremamente frequente. Algumas referências médicas estimam que até 80% da população apresente algum grau de desvio. Isso significa que encontrar um desvio em um exame de imagem não é, por si só, motivo para indicar uma cirurgia.
O que realmente importa é entender se esse desvio está causando sintomas, quanto ele interfere na respiração e qual é o impacto dessa alteração na qualidade de vida do paciente.
O que é o desvio de septo?
O septo nasal é a estrutura formada por cartilagem e osso que separa as duas cavidades do nariz. Idealmente, ele deveria estar próximo da linha central, permitindo uma passagem de ar adequada pelos dois lados.
Na prática, porém, é muito comum que o septo apresente algum grau de curvatura. Isso pode acontecer durante o desenvolvimento da face ou como consequência de traumas e fraturas no nariz.
O problema não está simplesmente em ter um septo que não seja perfeitamente reto. O problema aparece quando essa alteração é significativa o suficiente para comprometer a passagem de ar ou contribuir para outros problemas nasais.
Ter desvio de septo significa respirar mal?
Não. Essa é uma das principais informações que precisamos esclarecer.
Uma pessoa pode ter um desvio de septo visível em uma tomografia e respirar normalmente. Outra pode apresentar um desvio aparentemente menor, mas ter uma obstrução nasal importante.
Isso acontece porque a respiração nasal não depende apenas do formato do septo. Os cornetos nasais, a válvula nasal, a presença de inflamação, rinite e outras características anatômicas também podem interferir na passagem do ar.
Inclusive, estudos mostram que a relação entre a aparência do desvio nas imagens e a intensidade dos sintomas não é simples. A presença e o grau do desvio não conseguem, sozinhos, explicar completamente o quanto uma pessoa sente o nariz obstruído.
Por isso, não devemos tratar uma imagem, e sim um paciente.
Quando a cirurgia pode ser indicada?
A septoplastia, cirurgia realizada para corrigir o desvio do septo, pode ser indicada quando existe uma obstrução nasal significativa e os sintomas estão relacionados à alteração anatômica.
Um paciente que respira constantemente pela boca, tem dificuldade importante para respirar pelo nariz ou apresenta sintomas persistentes apesar do tratamento clínico pode ser um candidato à cirurgia.
Em algumas situações, a correção do septo também pode fazer parte do tratamento de pacientes com outras alterações nasais ou dos seios da face.
Além disso, existe uma situação particularmente importante: pacientes com apneia obstrutiva do sono que utilizam CPAP e apresentam uma obstrução nasal que dificulta a adaptação ao tratamento. Nesses casos, melhorar a passagem de ar pelo nariz pode contribuir para uma utilização mais confortável e adequada do aparelho.
A indicação, porém, precisa ser individualizada.
E quando não é necessário operar?
Se o paciente apresenta um desvio de septo, mas respira bem, não tem sintomas relevantes e não existe impacto significativo na sua qualidade de vida, muitas vezes não há necessidade de cirurgia.
Em alguns casos, o problema que está causando a obstrução nem sequer é o septo.
Uma pessoa pode ter desvio de septo e, ao mesmo tempo, apresentar rinite, aumento dos cornetos ou alterações da válvula nasal. Nessa situação, tratar apenas o septo poderia não resolver completamente a queixa.
É por isso que a avaliação de um otorrinolaringologista é tão importante antes de qualquer decisão cirúrgica.
O tratamento sempre precisa ser cirurgia?
Não. Dependendo da causa dos sintomas, o tratamento pode envolver medidas clínicas, como o controle da rinite e da inflamação nasal.
Medicamentos podem melhorar a congestão causada por alterações da mucosa, mas não conseguem “endireitar” um septo que apresenta uma alteração estrutural.
Quando a obstrução é realmente causada por uma deformidade importante do septo e não melhora com tratamento clínico, a cirurgia pode ser considerada.
Ou seja, não existe uma regra de que todo desvio precisa ser operado, assim como não existe uma regra de que nenhum desvio precisa de tratamento.
Como saber se o meu desvio precisa de cirurgia?
A decisão deve considerar muito mais do que o resultado de uma tomografia.
É preciso avaliar os sintomas, examinar o nariz, entender a história do paciente e identificar quais estruturas estão realmente contribuindo para a dificuldade respiratória.
Perguntas simples ajudam nessa avaliação: você respira pela boca? Sente um lado do nariz constantemente obstruído? Tem dificuldade para respirar durante exercícios? Ronca? Tem sinusites recorrentes? Acorda com a boca seca? Tem dificuldade para utilizar o CPAP?
Essas informações, associadas ao exame físico e, quando necessário, aos exames complementares, ajudam a definir a melhor conduta.
Conclusão
Ter desvio de septo é muito comum. E justamente por isso, encontrar essa alteração em um exame não significa automaticamente que você precise de uma cirurgia.
O que deve determinar a conduta é o impacto daquela alteração na respiração, nos sintomas e na qualidade de vida do paciente.
Em medicina, nem tudo que aparece em um exame precisa ser tratado.
O objetivo não é corrigir uma imagem porque ela não está perfeitamente alinhada. O objetivo é identificar quando existe uma alteração que realmente está prejudicando o paciente e, a partir daí, escolher o tratamento mais adequado.
Se você sente que não respira bem pelo nariz, ronca, dorme de boca aberta ou tem obstrução nasal frequente, uma avaliação especializada pode ajudar a entender a causa do problema e se existe, de fato, indicação para cirurgia.
Eu sou o Dr. Guilherme Brassanini, otorrinolaringologista e especialista em sono, e ajudo meus pacientes a entenderem as causas da dificuldade para respirar e a encontrar o tratamento mais adequado para cada caso.



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