Apneia do sono: 3 exames essenciais para uma avaliação completa

Ronco frequente, pausas na respiração durante a noite, sensação de sufocamento e cansaço ao acordar. Esses são alguns sinais que podem indicar apneia obstrutiva do sono.
Mas, quando existe suspeita da doença, não basta apenas identificar os sintomas. É importante compreender o que acontece durante o sono e investigar as estruturas anatômicas que podem estar dificultando a passagem do ar.
A avaliação da apneia envolve diferentes etapas. Enquanto um exame permite confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade do distúrbio, outros ajudam a identificar alterações no nariz, na faringe e em outras regiões da via aérea superior.
Entre os exames que podem fazer parte dessa investigação estão a polissonografia, a tomografia computadorizada dos seios da face com extensão da avaliação até a glote e a nasofibrolaringoscopia.
Cada um oferece informações diferentes e complementares, contribuindo para uma avaliação mais completa e para a escolha do tratamento adequado.
1. Polissonografia: o exame que identifica e avalia a gravidade da apneia
A polissonografia é o principal exame utilizado para diagnosticar a apneia obstrutiva do sono.
Realizada durante uma noite de sono, ela monitora diferentes parâmetros fisiológicos, permitindo identificar alterações respiratórias que acontecem enquanto o paciente dorme.
Entre as informações registradas estão:
Fluxo de ar pelo nariz e pela boca.
Movimentos respiratórios do tórax e do abdômen.
Saturação de oxigênio no sangue.
Frequência cardíaca.
Atividade cerebral e estágios do sono.
Despertares e fragmentação do sono.
Um dos principais indicadores analisados é o índice de apneia e hipopneia (IAH), que representa a quantidade de eventos respiratórios de apneia e hipopneia por hora de sono.
Esse resultado ajuda a determinar a gravidade da doença e a orientar a escolha do tratamento.
É importante entender que o ronco, isoladamente, não confirma apneia. Uma pessoa pode roncar sem apresentar pausas respiratórias significativas. Da mesma forma, nem sempre quem tem apneia percebe os episódios durante a noite.
A polissonografia permite sair da suspeita clínica e obter informações objetivas sobre o comportamento respiratório durante o sono.
2. Tomografia computadorizada dos seios da face com avaliação até a glote: investigando a anatomia da via aérea
A tomografia computadorizada é um exame de imagem que permite visualizar estruturas anatômicas com detalhes.
Na investigação de pacientes com apneia do sono, um protocolo que contempla os seios da face e se estende até a região da glote pode fornecer informações sobre diferentes segmentos da via aérea superior.
Essa avaliação permite observar alterações como:
Desvio do septo nasal.
Aumento dos cornetos (conchas nasais).
Alterações nos seios paranasais.
Redução dos espaços de passagem do ar.
Características anatômicas da nasofaringe e da orofaringe.
Alterações na região da base da língua e da hipofaringe.
Características estruturais da região laríngea.
Essas informações ajudam a identificar alterações que podem contribuir para a dificuldade respiratória e auxiliam no planejamento terapêutico, principalmente quando existe a possibilidade de uma abordagem cirúrgica.
Mas existe uma observação importante: a tomografia mostra a anatomia em determinado momento, geralmente com o paciente acordado e deitado durante a aquisição das imagens. Ela não reproduz, por si só, o comportamento dinâmico da via aérea durante o sono.
Isso significa que uma região aparentemente estreita na imagem não confirma necessariamente que aquele seja o principal ponto de colapso responsável pela apneia.
Por isso, os achados precisam ser interpretados em conjunto com os sintomas, o exame físico e os demais exames da investigação.
3. Nasofibrolaringoscopia: visualizando diretamente as estruturas da via aérea
A nasofibrolaringoscopia é um exame realizado com um aparelho fino e flexível, equipado com uma câmera, que permite visualizar diretamente diferentes regiões das vias aéreas superiores.
O aparelho é introduzido delicadamente pelo nariz e permite examinar estruturas que participam da respiração.
Durante o procedimento, o médico pode avaliar:
Cavidade nasal e possíveis obstruções.
Septo nasal e cornetos.
Região da nasofaringe.
Palato mole e paredes da faringe.
Base da língua, quando acessível à visualização.
Epiglote e estruturas da laringe.
Região da glote.
Uma das vantagens desse exame é permitir a observação direta das estruturas, identificando alterações que podem não ser suficientemente esclarecidas apenas pela avaliação externa.
A nasofibrolaringoscopia pode ajudar a identificar desvios anatômicos, aumento de tecidos, alterações da mucosa e outras condições que interferem na passagem do ar.
Também é um recurso importante para avaliar a anatomia antes de determinados procedimentos e auxiliar no planejamento de tratamentos individualizados.
Entretanto, assim como a tomografia convencional, o exame realizado com o paciente acordado não reproduz completamente o que acontece durante o sono, quando existe redução natural do tônus muscular e a via aérea pode apresentar colapsos.
Em situações específicas, outros métodos, como a endoscopia do sono induzido por medicamentos (DISE), podem ser considerados para investigar o comportamento da via aérea durante uma condição semelhante ao sono.
Por que esses três exames são complementares?
Cada exame responde a uma pergunta diferente.
A polissonografia permite entender se existe apneia, quantificar os eventos respiratórios e avaliar o impacto deles durante o sono.
A tomografia computadorizada fornece uma visão anatômica mais ampla, permitindo identificar alterações estruturais ao longo da via aérea.
Já a nasofibrolaringoscopia possibilita visualizar diretamente as estruturas, complementando a avaliação anatômica e funcional realizada no consultório.
Quando indicados em conjunto, esses exames oferecem informações que ajudam o médico a compreender melhor o quadro do paciente.
Essa diferenciação é especialmente importante quando existe a possibilidade de tratamento cirúrgico. Antes de propor qualquer procedimento, é necessário entender não apenas a gravidade da apneia, mas também quais estruturas podem estar contribuindo para a obstrução.
Os exames definem qual é o melhor tratamento para a apneia?
Eles ajudam a orientar essa decisão, mas nenhum exame deve ser interpretado isoladamente.
O tratamento depende de uma análise que considera a gravidade da apneia, as características anatômicas, os sintomas, as condições clínicas e as necessidades individuais do paciente.
Em alguns casos, o CPAP, considerado tratamento de referência para muitas pessoas com apneia obstrutiva, é a opção mais adequada.
Em outros, podem ser considerados aparelhos intraorais, medidas relacionadas ao peso e aos hábitos de vida ou procedimentos cirúrgicos direcionados a alterações anatômicas específicas.
A avaliação também permite identificar situações em que uma alteração nasal, por exemplo, pode dificultar a adaptação ao CPAP e precisa ser tratada.
O objetivo não é solicitar exames indiscriminadamente, mas escolher aqueles que realmente acrescentam informações importantes para a investigação e o planejamento terapêutico.
Conclusão
A investigação da apneia do sono precisa ir além da identificação do ronco e de outros sintomas.
A polissonografia, a tomografia computadorizada com avaliação da via aérea até a glote e a nasofibrolaringoscopia oferecem informações diferentes que podem se complementar na avaliação do paciente.
Enquanto a polissonografia identifica e quantifica os eventos respiratórios durante o sono, os exames de imagem e a visualização endoscópica ajudam a investigar as alterações anatômicas que podem estar envolvidas na obstrução.
Tratar a apneia exige entender tanto o que acontece durante o sono quanto as características da via aérea de cada paciente.
É a partir dessa avaliação individualizada que podemos definir uma estratégia terapêutica mais adequada, com critério e segurança.
Eu sou o Dr. Guilherme William Brassanini, otorrinolaringologista e especialista em sono, e ajudo meus pacientes a investigar as causas do ronco, da apneia e de outros problemas respiratórios para encontrar o tratamento mais adequado para cada caso.



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