Amigdalectomia: quando a retirada das amígdalas é realmente indicada?

“Doutor, minhas amígdalas são grandes. Preciso tirar?”
Essa é uma dúvida bastante comum no consultório. E a resposta é: não necessariamente.
As amígdalas fazem parte do sistema de defesa do organismo e, em muitas pessoas, permanecem grandes ou apresentam cáseos sem causar nenhum problema relevante. Por isso, a decisão de realizar uma amigdalectomia, cirurgia para retirada das amígdalas, não deve ser baseada apenas no tamanho delas ou na presença de cáseos.
O que realmente importa é entender se as amígdalas estão causando sintomas recorrentes, prejudicando a respiração ou interferindo de maneira significativa na qualidade de vida.
1. Infecções de garganta recorrentes
Uma das situações mais conhecidas em que a amigdalectomia pode ser indicada é quando o paciente apresenta episódios recorrentes de amigdalite.
Mas ter algumas infecções ao longo da vida não significa, automaticamente, que seja necessário operar. A avaliação considera a frequência e a intensidade dos episódios, a necessidade de antibióticos, a ocorrência de complicações e o impacto dessas infecções na rotina.
Quando as amigdalites são muito frequentes e passam a representar um problema recorrente para o paciente, a cirurgia pode ser uma opção.
Por isso, mais do que simplesmente contar quantas vezes a garganta inflamou, é importante entender o padrão dessas infecções e como elas estão afetando a vida da pessoa.
2. Amígdalas aumentadas causando obstrução
Outra situação importante acontece quando as amígdalas são grandes a ponto de dificultar a passagem do ar.
Isso pode ser especialmente relevante durante o sono. Em algumas pessoas, o aumento das amígdalas contribui para ronco, respiração pela boca, sono agitado e episódios de obstrução da via aérea.
Em crianças, o aumento das amígdalas e das adenoides é uma causa frequente de obstrução durante o sono e pode estar relacionado à apneia obstrutiva do sono.
Nos adultos, as amígdalas também podem participar da obstrução da via aérea, principalmente quando apresentam aumento importante.
Nesses casos, não basta olhar para o tamanho das amígdalas. É necessário avaliar a respiração, os sintomas durante o sono e, quando indicado, investigar a presença de apneia do sono.
A cirurgia pode fazer parte do tratamento quando existe uma relação clara entre o aumento das amígdalas e a obstrução.
3. Cáseos, mau hálito e desconforto recorrente
Os cáseos são pequenas formações que se acumulam nas criptas das amígdalas. Podem apresentar coloração esbranquiçada ou amarelada e, em algumas pessoas, estão associados a mau hálito, sensação de algo preso na garganta ou desconforto.
Ter cáseos, entretanto, não significa que a pessoa precise retirar as amígdalas.
Em muitos casos, medidas locais e acompanhamento são suficientes. A cirurgia pode ser considerada quando o problema é persistente, recorrente e provoca um impacto significativo na qualidade de vida, especialmente quando outras medidas não foram suficientes.
É importante evitar a ideia de que qualquer cáseo é uma indicação cirúrgica. A decisão precisa levar em conta a intensidade do problema e o impacto que ele realmente causa.
Amígdalas grandes sempre precisam ser retiradas?
Não.O tamanho das amígdalas é apenas uma parte da avaliação. Existem pessoas com amígdalas bastante aumentadas que não apresentam sintomas importantes e não precisam de cirurgia.
Da mesma forma, uma pessoa pode ter amígdalas que nem parecem tão grandes, mas apresentar problemas relacionados a infecções recorrentes ou outras condições que justifiquem uma avaliação mais cuidadosa.
Na prática, não tratamos apenas uma imagem ou uma característica anatômica. Tratamos o problema que aquela alteração está causando.
E quando a cirurgia não é a melhor opção?
Nem todo desconforto na garganta ou problema respiratório está relacionado às amígdalas.
Ronco, por exemplo, pode ter diferentes causas, incluindo alterações nasais, características da anatomia da faringe, excesso de peso e apneia obstrutiva do sono.
Da mesma forma, mau hálito pode ter origem em diferentes regiões, como boca, língua, gengiva, nariz e garganta.
Por isso, retirar as amígdalas sem entender a origem do problema pode não resolver o sintoma.
Uma avaliação com o otorrinolaringologista ajuda a identificar se as amígdalas são realmente as responsáveis pelo quadro e se existe indicação de cirurgia.
Como é tomada a decisão pela amigdalectomia?
A indicação é individualizada.
Durante a avaliação, o otorrinolaringologista considera o histórico de infecções, o tamanho das amígdalas, os sintomas respiratórios, a qualidade do sono, a presença de cáseos, o impacto na rotina e outras características clínicas do paciente.
Em algumas situações, exames complementares também podem ser necessários, principalmente quando existe suspeita de distúrbio respiratório do sono.
A cirurgia é um tratamento muito utilizado e pode trazer benefícios importantes quando existe uma indicação adequada. Mas, como qualquer procedimento cirúrgico, também envolve riscos e recuperação, por isso a decisão deve considerar a relação entre possíveis benefícios e riscos para aquele paciente.
Conclusão
Ter amígdalas grandes, apresentar cáseos ou ter episódios ocasionais de dor de garganta não significa, por si só, que você precise fazer uma amigdalectomia.
A cirurgia pode ser indicada principalmente quando existem infecções recorrentes, obstrução da via aérea relacionada ao aumento das amígdalas ou cáseos com sintomas e impacto importante na qualidade de vida, sempre considerando as características de cada caso.
Mais importante do que perguntar “minhas amígdalas são grandes?” é entender: elas estão causando algum problema que realmente justifique a retirada?
Essa é uma decisão que deve ser feita após uma avaliação individualizada com um otorrinolaringologista.
Eu sou o Dr. Guilherme William Brassanini, otorrinolaringologista e especialista em sono, e ajudo meus pacientes a entender as causas dos problemas respiratórios e do sono para encontrar o tratamento mais adequado para cada caso.



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