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Álcool piora o ronco e a apneia do sono? A verdade que ninguém te conta



É muito comum ouvir frases como:

“Eu durmo muito mais rápido quando bebo.”

“Só ronco quando tomo um vinhozinho.”

“Depois daquela festa, ronquei tanto que quase me expulsaram do quarto.”


Mas afinal…qual é a verdadeira relação entre álcool, ronco e apneia do sono?

Do ponto de vista fisiológico, a resposta é direta e baseada em evidência:o álcool piora a qualidade do sono e pode agravar significativamente o ronco e a apneia obstrutiva do sono.

E agora eu vou te explicar o porquê.


O álcool realmente ajuda a dormir?

Existe um mito muito difundido de que o álcool “relaxa” e, por isso, melhora o sono.

De fato, ele pode reduzir a latência do sono — ou seja, o tempo que você leva para adormecer.Mas isso não significa qualidade.

O sono induzido pelo álcool não é fisiológico, não é restaurador e não respeita a arquitetura normal do sono.


Após as primeiras horas da noite, o que ocorre é:

  • Fragmentação do sono

  • Redução do sono profundo (N3)

  • Redução do sono REM

  • Aumento de microdespertares

  • Alteração da estabilidade respiratória

  • Maior ativação autonômica na segunda metade da noite


O resultado?

Você pode até dormir “rápido”, mas acorda:

  • Cansado

  • Com dor de cabeça

  • Com sensação de sono não reparador

  • Com sonolência excessiva ao longo do dia


Quantidade de sono não significa qualidade.E o álcool é um grande sabotador dessa qualidade.


Por que o álcool piora o ronco?

Durante o sono, a musculatura da via aérea superior relaxa naturalmente.

O álcool potencializa esse relaxamento — principalmente na musculatura da faringe (garganta).

Isso leva a:

  • Maior colapsibilidade da via aérea

  • Estreitamento da passagem do ar

  • Vibração mais intensa dos tecidos

  • Aumento da resistência respiratória


Resultado prático?

👉 Ronco mais alto👉 Ronco mais frequente👉 Ronco mais irregular


É por isso que:

  • Pessoas que raramente roncam podem roncar após beber

  • Pessoas que já roncam percebem piora significativa

  • Parceiros relatam noites “insustentáveis” após consumo alcoólico


E no caso da apneia do sono?

Aqui o cuidado deve ser ainda maior.

Na apneia obstrutiva do sono já existe uma tendência ao colapso da via aérea durante o sono.O álcool potencializa exatamente esse mecanismo.

Ele pode:

  • Aumentar o número de eventos de apneia

  • Prolongar as pausas respiratórias

  • Reduzir a saturação de oxigênio

  • Aumentar o tempo total em hipóxia

  • Reduzir o tônus dos músculos dilatadores da faringe

  • Diminuir o reflexo de despertar (arousal)


Ou seja:

O cérebro demora mais para reagir à pausa respiratória.

Isso significa eventos mais longos e, potencialmente, mais perigosos.

Em pacientes com apneia moderada ou grave, o consumo de álcool antes de dormir pode ter impacto clínico relevante.


O impacto cardiovascular da associação álcool + apneia

A apneia do sono já está associada a maior risco de:

  • Hipertensão arterial

  • Arritmias cardíacas

  • Infarto agudo do miocárdio

  • AVC

  • Morte súbita noturna


Quando associamos álcool e apneia, ocorre:

  • Maior instabilidade respiratória

  • Aumento da variabilidade da frequência cardíaca

  • Maior ativação simpática

  • Picos pressóricos noturnos

Em pacientes com risco cardiovascular elevado, esse cenário merece atenção redobrada.

Não é alarmismo.É fisiologia.


Quem deve ter atenção especial?

O consumo de álcool antes de dormir merece cuidado redobrado em:

  • Pacientes com diagnóstico de apneia do sono

  • Pessoas com ronco frequente e intenso

  • Indivíduos com hipertensão arterial

  • Pacientes com histórico de arritmias

  • Pessoas com sonolência excessiva diurna

  • Indivíduos com obesidade ou síndrome metabólica


Isso significa que o álcool está proibido?

Não necessariamente.

Mas significa que ele impacta diretamente sua respiração noturna e sua arquitetura do sono.

E isso precisa ser entendido com maturidade.


E quem usa CPAP?

Se você utiliza CPAP, a recomendação é clara:

Não interrompa o uso do aparelho nas noites em que ingerir álcool.

Na verdade, nessas noites o uso é ainda mais importante.

Suspender o tratamento após beber pode aumentar significativamente a instabilidade respiratória.


Existe uma “quantidade segura”?

Não existe um número mágico universal.

O impacto do álcool depende de:

  • Dose ingerida

  • Horário do consumo

  • Peso corporal

  • Sensibilidade individual

  • Gravidade da apneia

  • Presença de outras doenças


De maneira geral:

Quanto mais próximo do horário de dormir, maior o impacto negativo.


Conclusão

O álcool pode até facilitar o início do sono.Mas compromete sua qualidade.E pode piorar significativamente o ronco e a apneia do sono.


Se você busca:

  • Melhorar sua respiração noturna

  • Reduzir risco cardiovascular

  • Acordar com mais disposição

  • Proteger sua saúde a longo prazo


Entender essa relação é fundamental.

Dormir não é apenas fechar os olhos. É permitir que seu organismo execute uma sinfonia fisiológica complexa e o álcool interfere nessa orquestra.


Eu sou o Dr. Guilherme Brassanini, médico otorrinolaringologista com atuação em medicina do sono, e meu trabalho é ajudar você a entender os fatores que sabotam sua noite para que volte a dormir com qualidade, segurança e performance.


Se você ronca ou suspeita de apneia, talvez o problema não seja “apenas uma bebida a mais”. Pode ser o seu sono pedindo atenção.



 
 
 

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