Álcool piora o ronco e a apneia do sono? A verdade que ninguém te conta
- Guilherme William Brassanini
- há 1 dia
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É muito comum ouvir frases como:
“Eu durmo muito mais rápido quando bebo.”
“Só ronco quando tomo um vinhozinho.”
“Depois daquela festa, ronquei tanto que quase me expulsaram do quarto.”
Mas afinal…qual é a verdadeira relação entre álcool, ronco e apneia do sono?
Do ponto de vista fisiológico, a resposta é direta e baseada em evidência:o álcool piora a qualidade do sono e pode agravar significativamente o ronco e a apneia obstrutiva do sono.
E agora eu vou te explicar o porquê.
O álcool realmente ajuda a dormir?
Existe um mito muito difundido de que o álcool “relaxa” e, por isso, melhora o sono.
De fato, ele pode reduzir a latência do sono — ou seja, o tempo que você leva para adormecer.Mas isso não significa qualidade.
O sono induzido pelo álcool não é fisiológico, não é restaurador e não respeita a arquitetura normal do sono.
Após as primeiras horas da noite, o que ocorre é:
Fragmentação do sono
Redução do sono profundo (N3)
Redução do sono REM
Aumento de microdespertares
Alteração da estabilidade respiratória
Maior ativação autonômica na segunda metade da noite
O resultado?
Você pode até dormir “rápido”, mas acorda:
Cansado
Com dor de cabeça
Com sensação de sono não reparador
Com sonolência excessiva ao longo do dia
Quantidade de sono não significa qualidade.E o álcool é um grande sabotador dessa qualidade.
Por que o álcool piora o ronco?
Durante o sono, a musculatura da via aérea superior relaxa naturalmente.
O álcool potencializa esse relaxamento — principalmente na musculatura da faringe (garganta).
Isso leva a:
Maior colapsibilidade da via aérea
Estreitamento da passagem do ar
Vibração mais intensa dos tecidos
Aumento da resistência respiratória
Resultado prático?
👉 Ronco mais alto👉 Ronco mais frequente👉 Ronco mais irregular
É por isso que:
Pessoas que raramente roncam podem roncar após beber
Pessoas que já roncam percebem piora significativa
Parceiros relatam noites “insustentáveis” após consumo alcoólico
E no caso da apneia do sono?
Aqui o cuidado deve ser ainda maior.
Na apneia obstrutiva do sono já existe uma tendência ao colapso da via aérea durante o sono.O álcool potencializa exatamente esse mecanismo.
Ele pode:
Aumentar o número de eventos de apneia
Prolongar as pausas respiratórias
Reduzir a saturação de oxigênio
Aumentar o tempo total em hipóxia
Reduzir o tônus dos músculos dilatadores da faringe
Diminuir o reflexo de despertar (arousal)
Ou seja:
O cérebro demora mais para reagir à pausa respiratória.
Isso significa eventos mais longos e, potencialmente, mais perigosos.
Em pacientes com apneia moderada ou grave, o consumo de álcool antes de dormir pode ter impacto clínico relevante.
O impacto cardiovascular da associação álcool + apneia
A apneia do sono já está associada a maior risco de:
Hipertensão arterial
Arritmias cardíacas
Infarto agudo do miocárdio
AVC
Morte súbita noturna
Quando associamos álcool e apneia, ocorre:
Maior instabilidade respiratória
Aumento da variabilidade da frequência cardíaca
Maior ativação simpática
Picos pressóricos noturnos
Em pacientes com risco cardiovascular elevado, esse cenário merece atenção redobrada.
Não é alarmismo.É fisiologia.
Quem deve ter atenção especial?
O consumo de álcool antes de dormir merece cuidado redobrado em:
Pacientes com diagnóstico de apneia do sono
Pessoas com ronco frequente e intenso
Indivíduos com hipertensão arterial
Pacientes com histórico de arritmias
Pessoas com sonolência excessiva diurna
Indivíduos com obesidade ou síndrome metabólica
Isso significa que o álcool está proibido?
Não necessariamente.
Mas significa que ele impacta diretamente sua respiração noturna e sua arquitetura do sono.
E isso precisa ser entendido com maturidade.
E quem usa CPAP?
Se você utiliza CPAP, a recomendação é clara:
Não interrompa o uso do aparelho nas noites em que ingerir álcool.
Na verdade, nessas noites o uso é ainda mais importante.
Suspender o tratamento após beber pode aumentar significativamente a instabilidade respiratória.
Existe uma “quantidade segura”?
Não existe um número mágico universal.
O impacto do álcool depende de:
Dose ingerida
Horário do consumo
Peso corporal
Sensibilidade individual
Gravidade da apneia
Presença de outras doenças
De maneira geral:
Quanto mais próximo do horário de dormir, maior o impacto negativo.
Conclusão
O álcool pode até facilitar o início do sono.Mas compromete sua qualidade.E pode piorar significativamente o ronco e a apneia do sono.
Se você busca:
Melhorar sua respiração noturna
Reduzir risco cardiovascular
Acordar com mais disposição
Proteger sua saúde a longo prazo
Entender essa relação é fundamental.
Dormir não é apenas fechar os olhos. É permitir que seu organismo execute uma sinfonia fisiológica complexa e o álcool interfere nessa orquestra.
Eu sou o Dr. Guilherme Brassanini, médico otorrinolaringologista com atuação em medicina do sono, e meu trabalho é ajudar você a entender os fatores que sabotam sua noite para que volte a dormir com qualidade, segurança e performance.
Se você ronca ou suspeita de apneia, talvez o problema não seja “apenas uma bebida a mais”. Pode ser o seu sono pedindo atenção.



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